
Desejamos a todos os nossos amigos e parceiros
Um ano de muita força e alegria
e que venham as dores e tristezas,
mas que elas nos tornem tão fortes quanto nunca imaginamos
e que sejamos capazes de selecionar os melhores encontros
e as mais nutritivas e coloridas forças
Que um pouco mais aprendamos a ser generosos conosco próprios
mas que isso não signifique sermos relapsos e lassos conosco mesmos
E, então,sem hesitação e auto-comiseração,
vençamos um preconceito a mais,
deixemos para trás outro medo
e sejamos capazes de doar afeto, carne e realidade
um tanto a mais
E que um dia seja todos os dias
e envelheçamos um pouco mais de modo juvenil
E não amorteçamos a vida
e vivamos ferozmente, impiedosamente
Com a intensidade que um animal selvagem tem
(Ensinou-me meu mestre de arte marcial: "não conheço nada que seja selvagem que tenha pena de si mesmo")
Por isso, sejamos menos bundões (em especial, politicamente)
e tenhamos umas dez colheres de sopa a mais
de orgulho e fúria
(porque acabo de descobrir: calor humano, alegria e emotividade
não precisam do desrespeito, do desleixo, da alienação,
do descapricho, da grosseria e da preguiça para se sustentarem)
Que amemos de modo um pouco mais concreto
com braços e ações
Tenhamos força transbordante para oferecermos desmedidamente
e sem palavras e promessas
(a promessa é a primeira mentira dos sovinas,
que só em palavras são capazes de doar,
para nos fazer emaranhar na esperança)
Quero que engulamos menos sapos
e nos tornemos furiosos diante do mesquinho e tacanho
Que esqueçamos um pouco da ironia, refúgio dos senis
e, sanguíneamente, ataquemos o que precisa ser atacado,
com os olhos e a pele de fronte
Desejo que todos aprendamos
a receber as generosidades e presentes
vendo bem
sabendo bem sensivelmente quem nos alimenta e nos fortalece
para que possamos fortalecê-los também com afeto e mão firme
Porque amizade é o maior e mais raro dos amores
e fica rebaixada quando se pensa em dá-la a todos
Que a compreensão, suavidade e flexibilidade
não se confundam com flacidez, indistinção e descuido
Mas sejam capazes de enamorar-se da desenvoltura, força e honradez
Sejam capazes de ficar perto da sutileza, da acuidade e da sensibilidade fina
E nos sintamos indignos diante de certos sentimentos nossos
e situações em que caímos
Nos vejamos um pouco maiores e nobres
Sejamos menos corruptos e pudicos
e não mais precindamos de possa potência de agir
Desejo que trabalho não seja tanto o que vivemos
mas vivamos tanto que possamos até trabalhar
E que paremos com as idéias e posturas cansadas e doentes
Que não suportam a vivacidade do jovem
e a sutileza do experimentado
Portanto, que ser jovem signifique ser mais experimentado
e que ser velho não importe mais do que experimentar
E sejamos capazes de tal multiplicidade e potência
que nos tornemos aptos a surpreender a nós próprios
(o maior sintoma de jovialidade)
Que o novo, só por ser novo, não nos seduza
E nem o velho, por ser velho, nos pareça confiável
E tenhamos respeito pelas crianças fortes e doces
mas sejamos implacáveis com as que tão novas
já se tornaram ressentidas e aburguesadas, sejam pobres ou ricas
Portanto, que respeitemos os mais velhos,
Mas não nos deixemos engabelar pela perversão dos arcaicos e odiosos do presente
E saibamos diferenciar compaixão de piedade
especialmente diante de alguém para quem a tragédia da vida
foi especialmente cruel
Que descubramos, por isso, o sentido de uma suave crueldade,
a qual não abre mão da agressividade destrutiva
e igualmente não exclui sensibilidade e cavalheirismo
porque no fundo, deseja criar mais,
deseja descobrir o insuspeito nas pessoas
e, principalmente, no viver, na vida
Quero muito que sejamos menos avaros com os afetos
e o doemos desmesuradamente, sem contar os níqueis de carinho e cuidado
E ganhemos em delicadeza e alegria
Façamos mais arte para consumirmos menos
Nos esforcemos ativa e rigorosamente para sermos mais criativos
e menos conformados com o engodo do talento
e a ideologia escravista do dom genial
E desejemos menos coisas e dias especiais
sabendo fazer do cotidiano algo de belo, alegre e digno de orgulho
Que amemos nossas dores e desejemos tão somente aquele dia que vivemos
E preenchamos nossa potência com coisas consistentes
que não se encontram em vitrine alguma
E curemos nossas tristezas sem anestesiá-las,
sabendo saborear o amargo e rir do ardido,
para nos tornarmos capazes de destilá-los
(a vida sem pimenta seria um erro!)
E portanto, tenhamos mais e fortes amizades
e nos disponhamos a cuidar fervorosamente destes amigos que conosco já estão
tanto quanto imaginamos tão acostumadamente que a família seja essencial
Quero que sejamos capazes de frutificar
em simples e singelas surpresas qualquer domingo tedioso
mais do que querermos natais, páscoas e outras festinhas estabelecidas
(incluindo nossos aniversários e os churrascos de domingo)
Portanto que a alegria não se confunda com a festa e a felicidade
Desejo que tenhamos sonhos originais
(menos sonhos de telenovela)
e queiramos viajar a lugares originais, realmente desconhecidos
(não os que o Globo Reporter e a CVC nos apresentam, enquanto almejamos e suspiramos, tão humilhados, pelas paisagens do homem branco, europeu, macho, destro, vencedor, vendedor...)
E tenhamos, portanto, mais corpo para criar, viajar, pintar, tocar, dançar, realizar sonhos, namorar e cuidar,
do que para obedecer, afogando-nos 12 horas por dia no trabalho
(Diz Nietzsche: "aquele que não tem, pelo menos, 2/3 do dia para si, é invariavelmente escravo.")
Por isso, que o passado seja o que é de fato: passado, história
A todos vocês, amigos e parceiros
desejamos que nos amemos mais
e estejamos perto uns dos outros
Desejamos um 2012 tão bom quanto pode ser
qualquer pequeno minuto de força e alegria desta vida.
(E que dia 29 de fevereiro seja desejável, mesmo que não seja o melhor dia!!)
Que a alegria dançante da potência
nos seja mais importante do que o desejo de felicidade
E, afinal, sejamos livres uma dose a mais
Cordiais abraços!!