
Já faz alguns meses... venho tendo pouca paciência com a idéia de que "afinal, em alguns momentos, é preciso a norma, é preciso flexibilizar e aceitar as coisas".
Para mim, isso é aquilo que Deleuze chama de pensamento cansado. É irritante e profundamente baixo quando se diz que flexibilizar é sinônimo de "enfim aceitar as coisas como estão"! Complicada é a noção de que a radicalidade é perigosa. A rigor, somos todos radicalidades! Somos todos diferenças radicais, irreptibilidades radicalíssimas. O perigo, a meu ver, é a da tirania, do despotismo generalizante. Radicalismo é muito diferente de tirania, embora estas duas coisas possam se confundir facilmente. Uma brisa é radical, especialmente num dia quente de verão! Uma folha que cai no outono é pura radicalidade! Um cabelo castanho claro é radical diante de um cabelo pretinho! Mas não há nada de tirano nisso. Não se trata de diferença de grau, de quantidade, mas de natureza, de estirpe, de ética!
Quando se diz "afinal, há regras para todos" lança-se mão de uma espécie de democracia do espírito resignado, que quer nivelar a todos, porém, no mais baixo nível. É o que se faz quando não se quer esgarçar o corpo e o pensamento, é a estratégia de tranqüilização, de um apaziguamento morno das vontades sanguíneas de transformação e expansão! É um modo de calar a criatividade, a inventividade e a experimentação. Se o estado de coisas não permite, então que se esgarce o pensamento para se CRIAR possibilidades! Sejamos realistas, queiramos o impossível!! Este já foi o lema de uma geração desejosa por transformações radicais nos modos de vida.
É extremamente triste e irritante quando intelectuais, pretendendo passar-se por precavidos e politizados, cantam com uma estranha força na voz os perigos de ser capturado pelas relações de poder e pelo capital, dizendo, "também se deseja o poder", ou "nunca se está fora das relações de poder". Só que, afirmar tanto o poder, louvando-lhe tanto suas presunsoças forças, é também uma terrível forma de desejá-lo, é um jeito tacanho de dar mais poder que o próprio poder sonha em ter. Enganchar-se tanto no poder do poder é uma forma de afirmar o poder, de querê-lo. Expressar o pessimismo ressentido e o cansaço da vontade de agir, inventar e mudar através de um discurso aparentemente engajado e atento é coisa profundamente repugnante! Não há pior traição!
Tudo o que eu não quero é me tornar uma autoridade espiritual coquete, como diz Deleuze, ou um militante paz e amor de terno e gravata.